Criança com DEL aprender a ler e a escrever?

A criança com DEL (Distúrbio específico de linguagem) aprende a ler e a escrever? Este foi o tema da aula que ministrei no III Combined Meeting e Four Otology 2018. Esta aula fez parte de um painel sobre DEL, coordenado pela Dra Mariana Lopes Fávero. Um tema bastante relevante e estudado tamanho o impacto que o DEL pode ter no futuro de nossas crianças.

Tantas são as causas que podem levar uma criança a apresentar dificuldade em aprendizagem de leitura e escrita que este tema tem sido bastante estudado e discutido visando elucidar estas causas e ajudar as inúmeras crianças e famílias que sofrem com esta dificuldade.

Para que o aprendizado da leitura e escrita se desenvolva é fundamental que hajam condições sociais e pedagógicas adequadas, integridade dos processos psicoemocionais, integridade das funções sensoriais periféricas do sistema nervoso, como audição e visão adequada ou tratada (seja com lentes refrativas em crianças com baixa acuidade visual ou aparelhos de amplificação sonora nos casos de crianças com perdas auditivas sensorioneurais) e inteligência adequada.

Com o avanço dos estudos em neurociências e o aprimoramento das técnicas de ressonância nuclear magnética funcional entre outras técnicas de exames que possibilitam a avaliação funcional do Sistema Nervoso Central (SNC), atualmente sabe-se que também é fundamental para o desenvolvimento do aprendizado da leitura e escrita  a ativação integrada de múltiplas e complexas áreas do SNC. Estas áreas são responsáveis pela decodificação do código escrito, atribuição de um significado a este código e a contextualização do mesmo, em forma de palavra, dentro de um texto lido, durante este aprendizado. Estas inúmeras áreas do SNC são responsáveis por funções neurológicas fundamentais para a aquisição de leitura e escrita. E qual são estas funções?

As funções neurológicas corticais fundamentais para o desenvolvimento do aprendizado da leitura e escrita são: Percepção visual, através dela a criança consegue perceber e diferenciar visualmente cada letra de seu código escrito; Percepção auditiva, permite a diferenciação de sons verbais entre os diversos fonemas da língua nativa da criança, sons estes que muitas vezes apresentam diferenças muito sutis; Funções executivas, são funções neurológicas responsáveis por manutenção e alternância de atenção, inibição de ações prejudiciais ao aprendizado em detrimento de outras fundamentais a sua aquisição, mesmo que estas não sejam atrativas em um determinado momento. Estas funções incluem ainda os diversos tipos de memória que temos. São portanto fundamentais para a aquisição e armazenamento de novos conhecimentos.

Além destas funções citadas acima estarem adequadas ao desenvolvimento da aprendizagem, ainda é necessário que haja integração das vias neurológicas sensoriais e  motoras e capacidade de programação motora dos movimentos, tanto de órgãos fono-articulatórios responsáveis pela fala, como de coordenação motora fina importante na escrita. A função cortical responsável pela programação dos movimentos em um aprendizado é denominada praxia. As praxias portanto também são fundamentais para o desenvolvimento da leitura e escrita.

Portanto, a avaliação de uma criança que vem apresentando dificuldade de alfabetização, dificuldade de aprimoramento de leitura, dificuldade de compreensão de texto e/ou dificuldade de escrita, requer uma ampla avaliação de suas habilidades e funções corticais bem como a observação de fatores psíquicos, sociais, pedagógicos e familiares que possam estar influenciando nestas dificuldades. Desta forma, gostaria de salientar a importância da avaliação clinica foniátrica que tem o intuito não só de pontuar as habilidades deficitárias na criança em questão, mas também de orientar a família a melhor forma de superar estas dificuldades. A clinica foniátrica permite ainda que o médico otorrinolaringologista especialista em foniatria sirva de ponte para uma acompanhamento multi e interdisciplinar tão fundamental nestas crianças, haja vista a amplidão e complexidade de fatores envolvidos nestes casos.

Apenas com uma visão abrangente e multidisciplinar que observa e avalia a criança como um ser individual em toda sua complexidade, é possível diagnosticar as diversas alterações que levam a uma dificuldade de aprendizagem. A adequada condução destes casos podem levar nossas crianças a superarem sua dificuldades, ajudando a se tornarem cidadãos mais felizes e prósperos e  contribuindo inclusive para o desenvolvimento social e econômico de nosso País.

Dra Vanessa Magosso Franchi

dravanessamf@gmail.com